
-Sou do Rio de janeiro, Jacarepagua
-Tenho de 25 a 36 anos

Trust Me...
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Levanto ainda cansado, cambaleando, meus olhos doem pelas poucas horas de sono. No caminho para o banheiro ainda olho para trás e então a vejo, na cama, nua, misturada aos lençóis. No ar o olor de um misto de suor, incenso e gozo. Na boca o sabor de malte, sexo e cigarro. Olho-a mais uma vez, ela parece um anjo, um anjo às avessas, de cauda e tridente. Poderia ficar ali por horas apreciando sua beleza.
Abro o chuveiro, sinto a água percorrer meu corpo como um turbilhão na minha mente. Tento me lembrar da noite anterior, começo a ouvir frases aleatórias que teimam em se repetir na minha cabeça.
"Há quanto tempo?...", "Não sei, quem sabe uns quatro anos?", "Nossa, que saudade...", "Por que não deu notícias?...", "Eu pensei estar morto...", "Garçom, por favor, mais dois duplos...", "Não, por favor, a conta...", "Este perfume...", "Você ainda se lembra?...", "Muita coisa aconteceu...", "Não, por favor, não faça isso...", "Sim, sim, eu quero...", "Este perfume...", "Você ainda tem esta foto?...", "Nossa que saudade... meu amor".
Finalmente começo a me recordar de alguma coisa. Puxo pela memória detalhes, lugares, cenas. Só consigo ver em flashes: gente passando, risos, mesas, toalhas, copos, boca, mãos, risos, letreiros luminosos, pernas, risos, seios, língua, cabelos, tesão, risos, lágrimas...
Penso em como seria se eu não tivesse ido embora a anos atrás.
A água batia na minha cabeça na vã tentativa de me trazer de volta à realidade. Mas eu não queria acordar, estava curtindo aquele misto de ressaca com cansaço, embaralhando lembranças distantes com aquelas que ainda nem haviam sido esquecidas.
Fecho o chuveiro, respirando o vapor que preenche todo o banheiro. Escuto o barulho da porta batendo. Como num estalo, saio de todo aquele transe que eu mesmo me induzi. Corro para o quarto na tentativa de estar errado em meu pensamento. Olho para a cama e só vejo os lençóis amassados, minhas roupas pelo chão. No ar agora estava seu perfume ainda fresco. Corro para a janela e vejo um táxi ainda partindo.
Na fronha, um bilhete escrito à caneta com uma marca de um beijo com batom:
"Ainda te amo, mas aprendi a ser livre. Tenho medo de perder minha liberdade, talvez por isso tenha te deixado partir um dia. Talvez eu ainda não esteja pronta para você. Não tenho respostas para muitas coisas que busco. Se preferir, continue morto, mas se decidir ressuscitar, eu sempre estarei aqui, porque sou sua, mas ainda não sei disso".
Tento assimilar aquelas frases, lendo e relendo por diversas vezes contínuas aquele pedaço de tecido.
Deitado, olhando para o vazio do teto, como numa explosão de emoções, solto a mais sincera gargalhada como há muito tempo não fazia.
"Meu Deus, como somos perfeitos".
"De repente eu me vejo amarelada, dominada, sem ninguém...nestas horas aparecem a preguiça, a vontade de sumir de vez..."
Esta música da Rita Lee pode traduzir bem como estou me sentindo.
Estou com um vazio, mas não por falta de amor, não...este nunca me faltou, sempre tive a sorte de ter pessoas ao meu lado que gostam muito de mim. Infelizmente não comandamos nossas próprias emoções, e nem sempre gostamos, na mesma intensidade, de quem gosta da gente.
O vazio que sinto, creio que seja um pouco maior...é o vazio de não ver mais sentido em nada do que faço. Não estou querendo ser dramático nem lamurioso (talvez já sendo), mas estou assim e preciso ser sincero, afinal este espaço é a minha fuga e seria hipocrisia demais dizer que estou me sentindo ótimo e tentar passar só mensagens positivas e uma imagem que na verdade eu não reconheço. Estaria mentindo para os outros, e o pior, mentindo para mim mesmo. Logo eu, que considero a mentira a pior maneira de se livrar de um problema e talvez o pior defeito de um ser humano.
É complicado admitir tal coisa, pois talvez esteja decepcionando àqueles que tanto acreditam na minha felicidade. Para estes, eu já disse aqui e volto a repetir: Eu não SOU assim, eu ESTOU assim. Sei que é uma fase meio ruim que estou atravessando, e assim sendo, vai passar.
O pior de tudo é quando me perguntam o porquê de eu estar me sentindo como estou, e ironicamente eu me faço a mesma pergunta: Qual será o motivo de eu estar assim? Afinal, graças à Deus, nada está me faltando. Tenho meu emprego (um tanto puxado, reconheço, mas tenho), estou com a minha família (por parte de mãe), tenho um carro relativamente novo que comprei com meu dinheiro, moro em casa própria, tenho meu quarto (onde não me falta nada), entre outras coisas. Mas cacete!!! Mesmo assim essa porra desse sentimento de inutilidade não me deixa.
Será que nos apegamos tanto a certas idéias que, mesmo sem saber se elas darão certo ou não, até se concretizarem nada que surja neste meio tempo tem seu valor? Tento dar conselhos a mim mesmo dizendo para aproveitar o instante e que nada é tão ruim que não possa piorar, mas não adianta...às vezes melhoro, mas volta e meia me pego mais uma vez down. Acho que estou ficando velho.
Ontem uma pessoa que eu gosto muito me fez uma pergunta: Bruno, o que você mais teme perder neste momento? e então eu respondi: A esperança.
E por isso eu continuo cantando:
"...Mas se me der na telha eu sou capaz de enlouquecer...e mandar tudo praquele lugar...(lalaiá, lalaiá...)"
Ai, ai...rs.
Beijos em todos e tenham uma ótima semana.
"Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.
Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.
Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou."(Fernando Pessoa)